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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

CHULA MARAJOARA - trecho livro Ruínas de Suruanã


- Mané-coquinho, cumo era memo aquela chula qui ocê fez pra D. Minervina, aquela qui cantava o vistido dela? - Tagarelou Zé Pretinho, sem largar o diadema de penas.
- Já tá fora di moda. Ela inda era sortera - Aparteou Erotildes, com despeito , pondo mais fumo no taquari.
- O qui é bom num sai di moda. Canta Mané, pra alegrá a gente - interveio o queijeiro, talhando saco de coalhada.
- Ei Argemiro, vem cumpanhá o Mané no violão - chamou outro. O vaqueiro levantou-se da escada, não sem espichar um olhar para a Casa-Grande onde a noiva morava.
Mané pigarreou, afinou o instrumento e soltou a chula que fizera numa festa de São João, quando Minervina chegara muito formosa, toda de vermelho.

Mulata, cumo eu quisera
sê teu vistido incarnado!
Mulata, ai quem mi dera
vivê nu teu corpo incostado.

Achei tão escandaluso
e tão justo o teu vistido,
por demais audaciuso,
por demais a ti unido.

Qui tive um sério dispeito
du teu vistido incarnado,
tão coladinho em teu peito
conto eu di ti afastado.

Na festa du barracão,
condo chegaste facera,
teu vistido vermelhão
parecia uma fuguera

A incendiá os coração
tu dançava um machucado
dispertando as atenção
o teu vistidu incarnado

E bem tarde já cansada
fuste ao terrero varrido
abanaste afugueada
o decote do vistido

E pensando tá sozinha
tiveste gesto atrivido,
abriste certa molinha
bem no meio do vistido

Sinti o oiá graduado
cuntinuei iscundido
aguardando esperançado
qui abrisses tudo vistido

Mas vortaste ao barracão
nu teu andá rebulado
fuguera di S, Juão,
u teu vistido incarnado.

Mulata, ah! si eu pudesse
a ti mi vê munto unido.
Mulata, ah! si eu tivesse
a sorte du teu vistido!

*****

# A Chula Marajoara é uma dança cultural no ritual afro-brasileira. No Pará é cultivada principalmente nas regiões onde se instalaram os negros escravos, com mais frequencia em Cachoeira do Arari, na ilha do Marajó, por isso recebeu este nome.

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