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sábado, 11 de fevereiro de 2012

MARÉ DE SAUDADE - Antonio Juraci Siqueira


Carrego um rio em minha alma
que, às vezes, sem piedade,
faz transbordar suas mágoas
num turbilhão de saudade.

Camarão preso na grade
do matapi resistente,
assim também é a saudade
presa no peito da gente.

Saudade - lenço à distância
dobrando a curva da vida...
Saudade - traços da infância
em nossa mente imprimida...

A Inocência era menina
e eu, também , um curumim.
Ela, dengosa e ladina,
jogava versos assim:

"- Lá vem a garça avuando
cuma tesoura no pé
pra cortá a língua dos zome
que fala mar das mulhé!"

Um quati-mundé que via
seu orgulho machucado,
de poeta eu me vestia
e dizia, em pé quebrado:

"- Condo vim da minha casa
deixei um urubu cum fome
pra cumê as língua das mulhé
pra num falá mar dos zome!"

Por detrás do cachimbo fumegante
de barro e taquari, vovó cismava...
Ás vezes debulhava pensamentos
e de quando em vez abria a mala
do amor pra dizer coisas assim:

"- Joguei um buçu pra riba
que foi batê nim Belém:
deu na barca, deu na barra,
deu no peito do meu bem!"

Um dia com os olhos cheios
de tudo o que comungou,
fitando o passado um velho
 ribeirinho me falou:

"- A sodade é dô pungente
que deixa a gente mufino...

Sodade é bicho malino
bulino dentro da gente!..."


*****

Do livro: Canto Caboclo - Trilogia Amazônica
*

4 comentários:

  1. Querida, Marli, eu sou apaixonada pelas "Marés" de Antonio Juraci, cada uma mais bela que a outra.
    Esse poeta paraense é demais, demais.

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  2. Dáguima querida,somos mundiadas por este boto encantado e suas poesias cada vez mais encantadas, belas e tocantes. Como você diz: ele é demais,demais.

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  3. Meninas, manerem. Olhem que o boto enfarta!...
    Obrigado pelo carinho, pela amizade e pelo
    gosto de navegar comigo por esse rio de palavras e emoções.

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  4. Meu querido boto, não é pra infartar, é pra ficar todo faceiro...
    Te adoro!

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