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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Bailarino das letras nos campos marajoaras


Bailarino das letras nos campos marajoaras

As palavras entrançadas como cipó, as paisagens recortadas por rios e recendendo
a cheiro-cheiroso, as gentes ribeirinhas com seus gestos de água e selva, poesia
primitiva que irrompe ao chamado mágico do artista. É a Ilha de Marajó abrindo-se
em universos, na arte de dois nativos intérpretes das coisas paraenses: Ruy
Paranatinga Barata e Dalcídio Jurandir, um paraense de Santarém e outro de Vila
de Ponta de Pedra, e dois amigos de tristezas e alegrias.

Quando a poesia e a poesia se encontram
“Conheci Dalcídio na década de 30 e, dadas as identificações artísticas e pessoais
que nos aproximavam, ficamos logo amigos”, conta Ruy, em sua casa na rua Veiga
Cabral, onde Dalcídio morava naquela época e para onde coincidentemente Ruy
posteriormente mudou-se.
- Dalcídio era muito pobre e essa condição impedia, tanto ele quanto nós, de
sonharmos, pelo menos a curto prazo, com o reconhecimento de seu talento
literário. Não que duvidássemos dele, ao contrário, mas porque todas as condições
eram adversas e ainda com o agravante de que ele morava no Pará, naquela época
um Estado culturalmente ainda mais distante dos grandes centros, Rio e São Paulo
-, afirmou o poeta.
Porém, contrariando as desalentadoras perspectivas dessa realidade, Dalcídio
Jurandir vence em 1940, com Chove nos Campos de Cachoeira, o concurso Dom
Casmurro, promovido pela editora Vecchi, “numa surpresa geral para todos nós e
na maior alegria que a literatura concedeu a Dalcídio”. Com o dinheiro do prêmio
ele publicou o volume laureado e voltou ao Rio de Janeiro, onde fixou residência
definitivamente, retornando a Belém apenas por curtos períodos.
Ruy disse que Dalcídio era um homem muito digno, que tinha um imenso orgulho
de sua negritude e que sempre manteve-se fiel às suas posições, tanto pessoais
quanto ideológicas. Ele afirmou também que sempre, por ocasião de suas curtas
passagens pelo Rio de Janeiro, encontrava-se com Dalcídio, com quem conversava
horas e horas, sobretudo a respeito do livro que Dalcídio estivesse escrevendo pelo
tempo das visitas. Ler para um paraense seus escritos sobre o Pará era para
Dalcídio uma forma de exercitar o sentimento nativo que em farta quantidade
existia dentro dele”.

Bailarino do Marajó
Ruy afirmou que Dalcídio era muito comedido quanto às bebidas alcoólicas,
“embora a elas não se furtasse”. E, nas noitadas em que os dois costumavam se
aventurar sempre que estavam juntos, a maior diversão para Dalcídio era dançar.
“Seguramente, a noção de ritmo, a musicalidade característica da prosa dalcidiana
tem muito a ver com sua capacidade para a dança: nas noites cariocas e nos seus
livros, Dalcídio era um verdadeiro bailarino do Marajó”, conta.
Ruy disse ainda que ele era extremamente sério em todas as suas atividades, o
que, aliado ao seu já reconhecido talento literário, assegurou-lhe um grande
prestígio entre o meio intelectual carioca da época. “Uma vez, num congresso de
escritores realizado em Porto Alegre, por indicação de Dalcídio, fui eleito o segundo
secretário do congresso: eu era um total desconhecido e a minha escolha se deveu
apenas à liderança que ele exercia sobre os nossos colegas”.

Tristezas
Na tarde de 27 de novembro de 1962, na livraria José Olimpyo, visitada por Ruy
sempre que este ia ao Rio de Janeiro, Dalcídio Jurandir diz-lhe, a fala entrecortada,
que Mário Faustino havia morrido num acidente aéreo. Pouco tempo depois, outra
tragédia atingia os dois amigos e todo meio intelectual conhecedor de Dalcídio: ele
foi acometido do mal de Parkinson. Dezesseis de junho de 1979: Dalcídio morre em
conseqüência da doença.
Mas nos olhos marejados de Ruy Barata, de Frederico Paulo Mendes, de Benedito
Nunes, e de todos os que conheceram Dalcídio, sua presença discreta continua, sua
seriedade e tímida presença física permanecem sendo movimentadas por passos de
bailarino.

Jornal não identificado.

Fonte: www.dalcidiojurandir.com.br

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