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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Uma Luz no rio - Walcyr Monteiro

UMA LUZ NO RIO

Mistérios e mais mistérios povoam os lagos, igarapés, furos e paranás, bem como toda a floresta amazônica. Seres fantásticos habitam  estes lugares, desafiando a coragem dos mais audazes, que muitas vezes, pálidos de pavor, ficam mudos diante do inexplicável. Os que duvidam às vezes vivenciam fatos que, depois, temem contar, não querendo parecer mentirosos, principalmente se são habitantes das grandes cidades. Mas os povos da floresta e os ribeirinhos já estão acostumados com as histórias de encontros com tais seres fantásticos ou encantados...Existem mesmo os que aceitam dividir o espaço, pois, afinal, Deus criou o mundo para todos e não somente para os humanos...
D. Luzia Chaves Almeida, natural de Afuá (Marajó-Pará), conta esta história que bem demonstra que há lugar para todos no mundo...

- Decorria a década de quarenta.
D. Carolina e seu Sabino moravam no rio Tartaruga, em Afuá, e gostavam muito de viajar por um outro rio chamado Vieira, pela beleza das paisagens. Não tinham hora: viajavam de manhã, de  tarde, de noite, enfim, a qualquer tempo que lhes desse na cabeça, lá saíam passeando pelo rio.
Uma noite de sexta-feira estavam dando seu passeio, quando viram uma luminosidade no rio vinda em sentido contrário.
Não era uma embarcação: isto eles conheciam de longe, ribeirinhos que eram. Fixaram a vista e lá vinha aquela luz por cima do rio. D. Carolina começou a ficar com medo e seu Sabino continuou absolutamente calmo, como se nada estivesse acontecendo.
À medida que a luz se aproximava, mais D.Carolina temia e foi apavorada que viu do que se tratava.
- É uma cabeça de fogo...! gritou para o marido.
Lá estava aquela coisa horrível: uma cabeça humana, ardente. separada do corpo, dentro de uma grande cuia, tendo como que a protegê-la de possível chuvisco um grande guarda-chuva. Ia seguindo a correnteza, descendo o rio.
Seu Sabino continuou a remar como se nada visse. Apenas D. Carolina horrorizada, olhava aquela cena insólita de uma cabeça toda em chamas navegando na cuia!
Passou ao lado - D. Carolina quase desmaiada de susto - e desapareceu na noite...
D. Carolina inquiriu o marido!
- Mas homem, que negócio horroroso é este?
- É uma cabeça de fogo, como disseste!
- Sim, mas o que é isto de cabeça de fogo?
- A cabeça de fogo é fadista, ou seja, carrega um fado com ela.Toda noite de sexta-feira tem de sair numa cuia descendo o rio. Este é o seu fado, a sua sina.
- E tu não tiveste medo?
- Eu não! Nem um bocadinho! Por que haveria  de ter? Afinal, eu ia na minha viagem e ela na dela...

É isto aí,leitor! Se numa noite de sexta-feira você estiver viajando pelos rios amazônicos, principalmente os afluentes e sub-afluentes do rio Amazonas na sua foz, e, de repente, enxergar uma luz no rio, não tenha medo: pode ser uma cabeça de fogo! Deixe ela pra lá: siga sua viagem, e ela seguirá a dela, não lhe assombrando nem lhe fazendo nenhum mal...Estará apenas cumprindo a sina dela...!
*

WALCYR MONTEIRO, nasceu em Belém do Pará. Professor de níveis médio e superior, jornalista profissional, funcionário público estadual, tendo ocupado funções destacadas, entre as quais presidente do Instituto de Terras do Pará - ITERPA. Membros de diversas entidades culturais como Instituto Histórico e Geográfico do Pará e Centro Paraense de Estudos do Folclore(presidente deste último).  Tem vários trabalhos publicados, inclusive em Portugal(Instituto Piaget) e no Japão(Shinseken), dos quais se sobressaem Visagens e Assombrações de Belém, As incríveis Histórias do Caboclo do Pará e a série, Visagens, Assombrações e Encantamentos da Amazônia.

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